Denominações Evangélicas: uma reflexão nas origens

24/11/2014 19:03

 Luiz Fernando Mendes Nunes

 

        Qual o motivo de tantas denominações evangélicas? Essa é uma pergunta que talvez muitas pessoas se fazem. Segundo o Senso do IBGE 2010 só no Brasil existem mais de 16 denominações evangélicas com grande número de membros atuantes e outras organizações evangélicas de origens variadas de menor participação. Segundo pesquisa realizada pela SEPAL – Servindo a Pastores e Lideres – com base em dados do IBGE, até 2005, havia no Brasil 125 denominações. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divide os evangélicos em duas subclasses: evangélicos de missão (aqueles chamados históricos: Luteranos, Anglicanos, Presbiterianos, Batistas, Metodistas) e os evangélicos de origem pentecostal que inclui os neo-pentecostais: Assembleia de Deus, Congregacional Cristã no Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Pentecostal Deus é amor, Igreja Universal do reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, entre outras).

        Denominações Históricas e Pentecostais sofreram divisões ao longo dos anos originando novos grupos religiosos, alguns ainda levam o nome de origem, mas alguns ensinos e movimentos se tornaram diferentes. Chama-se denominações históricas aquelas que surgiram nos primeiros séculos da reforma protestante e, pentecostais, aquelas oriundas do século XX. A denominação Assembleia de Deus é fruto da ruptura da denominação Batista, fato ocorrido quando missionários oriundos dos Estados Unidos tentaram incluir nos cultos, práticas como batismo no Espírito Santo e glossolalia (falar em línguas) como evidências para os adeptos do movimento. A nova doutrina não foi aceita pela igreja de origem, e, em 1911 culminou na separação destes irmãos e seus adeptos fundando uma nova igreja que inicialmente se chamou Missão de Fé Apostólica. Em 1918 a nova denominação foi registrada oficialmente pelo nome de Assembleia de Deus.

        Mas, qual o motivo de existirem tantas denominações sabendo que professamos a fé no mesmo Deus, temos como Salvador o mesmo Senhor Jesus, somos guiados pela mesma palavra e, temos a mesma Unção, por que de tantas denominações? Lendo as Escrituras podemos até compreender em parte qual seja o motivo. Na primeira carta de Paulo aos coríntios capitulo 1 versículo 12, Paulo reprendeu severamente aqueles irmãos, pois havia contenda entre eles, uns diziam que eram de Paulo, outros diziam que eram de Apolo, outros de Cefas e outros de Jesus Cristo. Note o espírito de divisão, de partidarismo aflorando no meio da igreja. No versículo 13 Paulo continua a exortação dizendo: "Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes vós batizados em nome de Paulo?" Esse episódio só aconteceu na igreja em Corinto, nas outras igrejas, em Éfeso, Galácia, Tessalônica, Filipos e Colossos isso não aconteceu, pelo contrário, os irmãos de Tessalônica foram elogiados pelo apóstolo Paulo no tocante ao grau de maturidade daquela igreja. Paulo diz que a fé e o testemunho daqueles amados repercutiu por lugares distantes e isso era do agrado de Deus (I Tessalonicenses 1:7 e 8), aquela igreja era exemplo para os fiéis, diz o apóstolo.

Outro episódio bíblico que merece nossa atenção foi o ocorrido no deserto, durante os anos da peregrinação de Israel. Deus havia escolhido Moisés para conduzir o povo, mas em certo momento duas pessoas, Miriã e Arão, começaram a se questionar e inflamar o povo dizendo: "porventura falou o Senhor somente por Moisés? Não falou também por nós?..." (Números 12:2). Também nesse episódio está explícito o espírito de divisão, não divisão da igreja, pois não havia igreja, mas divisão de pensamentos, direção, concordância e foco.

        A partir do século XVI e, principalmente no século XX, a igreja do Senhor Jesus vive um momento que podemos chamar de "momento denominacional", nos dias atuais, mais que em qualquer época, o apelo pela sua denominação (pelo seu partido) está sendo muito mais forte que pelo evangelho, quando se evangeliza, muitas vezes o convite não é para conhecer a Cristo, conhecer o Evangelho da salvação, mas sim conhecer a "sua" igreja, a "sua" denominação. De forma gritante, Cristo é posto de lado quando os cristãos defendem as doutrinas e tradições da tão venerada denominação. E, mais agravante, quando cristãos reivindicam para seu partido maior status de santidade, maior grau de intimidade com o Senhor, isso chega a ser vergonhoso. No dia de pentecostes Deus deu início à Sua igreja, não um partido, mas o homem resolveu incrementar e criou denominações, grupos que satisfazem seus interesses. Hoje, muitos falam mais da sua denominação do que propriamente do Evangelho, quando o apóstolo Paulo evangelizou os gentios, não anunciou uma igreja já existente, mas falou da graça, da salvação, de Cristo, ele, na carta aos romanos capítulo 1 versículo 16 diz: "não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê..."

        Muitos novos grupos demominacionais surgem como fruto da não aceitação dos costumes e crenças da igreja, insatisfação com a liderança, ou para fundar movimentos específicos (avivamento, renovação, e, outros). Em todos os casos, a igreja deixa de ser organismo que congrega para ser uma instituição que afasta e busca seus próprios interesses. A igreja tem deixado de ser corpo, família, fraternidade para ser organização, não no sentido de ser organizada politicamente e legalmente como pessoa jurídica, mas organização no entendimento de que ela passou a se preocupar mais com o "seu" espaço, "suas" tradições, "suas" normas do que propriamente com mandamentos do tipo "amai-vos uns aos outros com amor fraternal, suportai-vos uns aos outros, sujeitai-vos uns aos outros, perdoai-vos uns aos outros", estes e tantos outros mandamentos não devem ser unicamente exercitados na igreja local, mas entre todos os irmãos.

        É preciso entender que Cristo tem apenas uma igreja, Ele não tem denominação. Cristo tem um único corpo, contudo este corpo, que é a igreja, tem aos poucos deixado a convivência e dependência dos membros e se isolado no seu “espaço” de quatro paredes, na sua forma "litúrgica", na sua defesa pela tradição. Muito se ouve de discussões sobre instrumentos para o culto congregacional, mulheres na liderança de cultos, ordenação de pastoras, uso exclusivo de hinário para o canto congregacional, ritmos não permitidos dentro do templo, vestimentas e adereços para mulheres, dons do Espírito Santo, em linhas gerais, a origem da existência de muitas denominações está centrada na insatisfação. Estar insatisfeito com algo e acreditar que pode fazer mais e melhor. Quando isto acontece, e tem acontecido constantemente, o único que se beneficia é o inimigo de nossas almas: satanás. A existência de denominações afastam os irmãos e esfria a comunhão. Alguns até se divertem dizendo: "somos primos, não irmãos". É verdade inegável que muitos cristãos de denominações diferentes não se cumprimentam e duvidam da salvação de determinados grupos evangélicos. A igreja está aos poucos promovendo a separação, enquanto Cristo promovia a união. A igreja aos poucos tem se mostrado orgulhosa com seu partido, enquanto Cristo ensinou sobre a humildade.

        O fluxograma a seguir descreve a trajetória da igreja de Cristo desde o tempo em que não existia templos para reuniões até os dias atuais em que esta se nomeia com rótulos e placas.

 
   

 
   

CONCLUSÃO

        De tudo que foi exposto podemos concluir que o motivo principal da classificação por denominações é a insatisfação por parte de certos grupos religiosos.  O século XX está marcado pelo pluralismo denominacional, no Brasil há pelo menos 125 diferentes denominações, nos Estados Unidos, estima-se que existam mais de 250, todos, de alguma forma, anunciam o Evangelho de Cristo, anunciam a salvação pela graça de Deus, mas nem todos tem cultivado o mandamento de Jesus: “Nisto, todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” João 13:35.

          A marca do Evangelho é o amor, não um sentimento passageiro ou marcado pela troca, pela barganha, mas uma atitude que se iniciou com o próprio Cristo dando-nos o exemplo a ser seguido. A igreja com suas denominações têm ensinado a muitos amar a Cristo de todo o coração, de toda alma, de todas as forças, mas, muitas vezes não se percebe esse amor para com o irmão de um grupo diferente. Amor apenas com palavras não serve, o apostolo João na sua primeira epístola nos ensina o seguinte: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” I João 3:18. A existência de denominações já é por si só uma divisão da igreja distanciando-se cada dia mais dos primeiros cristãos que perseveravam na doutrina, na comunhão, tinham tudo em comum e caindo na graça do povo, Deus acrescentava à igreja aqueles que haviam de ser salvos (Atos 2: 42 – 47).

 

REFERÊNCIAS

HURLBUT, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. Editora Vida. 2002. São Paulo

SEPAL. Um Estudo das Denominações Evangélicas nas Regiões do Brasil. Março/2005. Disponível também em https://semadema.com.br/wp-content/uploads/2013/03/Estudo-Denominacoes-e-regioes.pdf

FERNANDES, Rubeneide Oliviera Lima. Movimento Pentecostal, Assembleia de Deus e o Estabelecimento da Educação Formal. Dissertação de Mestrado. Universidade Metodista de Piracicaba. São Paulo. 158 pág. Disponível também em: https://www.unimep.br/phpg/bibdig/pdfs/2006/ALFTDYXGHISV.pdf

CARMO, Cláudio Márcio do. Sobre a instituição da Igreja Universal do Reino de Deus: uma análise de sua “realidade” como um fator preponderante no processo de conversão. 2011. Disponível também em: https://www.iptan.edu.br/publicacoes/saberes_interdisciplinares/pdf/revista06

OLIVEIRA, Rok Sônia Naiária de. A Indumentária e os usos e costumes defendidos pela igreja Assembleia de Deus (1975-1999). XXVII Simpósio Nacional de História. Natal – RN, 2013.

Senso IBGE 2010. Disponível em: www.ibge.gov.br

https://www.mackenzie.br/historia_igreja.html

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